Cheias em Moçambique: Malária é uma grande preocupação nos centros de acomodação
Semanas de fortes chuvas no início do ano causaram graves inundações das bacias hidrográficas na parte central e norte de Moçambique, o que levou o Governo a declarar o alerta vermelho, o mais alto nível de resposta.
Zambézia - "A água veio de repente, no meio da tarde", diz Nita Alves, lembrando o dia em que a sua aldeia foi inundada duas semanas atrás. "Não havia nenhum lugar para onde fugir, por isso subi numa árvore com os meus três filhos, amarrei-os em torno de mim com minha capulana e pedi a Deus para que não caíssemos."

Nita e seus filhos passaram cinco dias na árvore, quase morrendo de sede e de fome. E não estavam sozinhos. As árvores ao redor estavam cheias de pessoas, agarrando-se aos ramos para salvar a vida. Alguns não sobreviveram.
"Uma senhora perdeu o seu recém-nascido, que sofreu uma pancada na cabeça e morreu", diz Nita. "Ela manteve-o nos braços por três dias, esperando que as águas diminuissem o suficiente para ela dar-lhe um enterro condigno. Mas não diminuíram. Ela teve de deixá-lo ser levado pela corrente."
Semanas de fortes chuvas no início do ano causaram graves inundações das bacias hidrográficas na parte central e norte de Moçambique, o que levou o Governo a declarar o alerta vermelho, o mais alto nível de resposta. A inundação afectou comunidades inteiras, cortou estradas e fornecimento de energia, destruiu pontes, casas e escolas, principalmente nas províncias da Zambézia e Nampula. Nita é uma das mais de 50 mil pessoas que foram forçadas a fugir de suas casas para salvar suas vidas.
Finalmente, barcos alcançaram Nita e seus filhos, e ela diz que sentiu imenso alívio. Todos foram resgatados e levados para uma escola, mas, desde então, mudou-se para um centro de acomodação em Ronda - Furquia, em Namacurra. Há cerca de 310 famílias no local, um centro que já hospedava cerca de 480 famílias deslocadas por inundações anteriores. Isso colocou uma enorme pressão sobre os serviços do centro.
Há uma pequena clínica, uma bomba de água, tendas escolares grandes. Nita e seus filhos partilham uma tenda com seu pai e sua família.
A distribuição de rações alimentares e kits de abrigo já começou, mas nem todas as famílias receberam ainda. Nita diz que não tem sido fácil, mas está grata pelos serviços médicos.
"Esta manhã eu e o meu filho tínhamos febre, e fizemos o teste da malária na clínica. O enfermeiro deu-nos medicamentos."
A malária tornou-se uma grande preocupação no centro. O enfermeiro da clínica, Andrico Nametabala, diz que em uma semana registou 172 casos, dos quais cerca de 90 eram crianças com idade inferior a cinco. Infecções Respiratórias Agudas, parasitas e conjuntivite também estão a aumentar, diz.
"A maioria apanhou malária quando estavam nas árvores, tentando escapar das enchentes", avalia.
Andrico é o único enfermeiro do centro, que tem uma população de cerca de 2600 pessoas, cerca de 70 por cento das quais são mulheres e crianças. Com 10 activistas e um agente comunitário de saúde, estão a distribuir redes mosquiteiras e produtos de tratamento de água.
"Nós definitivamente precisamos de mais comida, abrigo e utensílios de cozinha. Nossas famílias perderam tudo ", diz ele.
O Governo de Moçambique solicitou a assistência imediata de parceiros humanitários, e a ONU está a preparar rapidamente um pedido ao Fundo Central de Resposta de Emergência (CERF) para cobrir as necessidades de salva-vidas mais urgentes. Assistência adicional será buscada através de uma Proposta de Resposta e Recuperação que está a ser simultaneamente desenvolvida para os doadores.
As violentas cheias deixaram um grave rasto de destruição, especialmente na Zambézia, onde comunidades continuam sitiadas. As águas estão a recuar, mas o acesso continua a ser um obstáculo para o salvamento e operações humanitárias. Serviços de abrigo, alimentação, água, kits familiares, de saneamento e de saúde são uma prioridade nestas primeiras semanas de resposta.
INTERVENÇÃO DO UNICEF
Coordenacão
• Apoiar as autoridades nacionais de gestão de calamidades
• Coordenar a resposta humanitária com os ministérios sectoriais, a equipe humanitária do país e os clusters.
• Liderar os clusters de Agua, Saneamento e Nutrição, participação activa nos clusters de saúde, educação e proteção.
• Coordenar o apoio em comunicação e mobilização social.
Suprimentos
• produtos de tratamento de água, baldes, jerricans e lajes de saneamento para os maiores centros de acomodação na Zambézia para apoiar 50.000 pessoas
• suprimentos nutricionais de emergência de 30 dias para 3.000 crianças
• Sete tendas clínicas e kits de saúde para 10.000 pessoas
• kits familiares para famílias especialmente vulneráveis, e kits de apoio psico-social para os agentes de protecção social
• Geradores de energia para as estações de rádio comunitárias e apoio para produzir e transmitir mensagens de salvamento
• Produtos de higiene e de promoção da saúde, materiais para equipar pelo menos 500 activistas em centros de acolhimento
• 6.000 folhetos sobre práticas de salva-vidas para os cuidadores e crianças em idade escolar
• 11 tendas escolares e kits de aprendizagem para 10.000 crianças.
Para mais informações, favor contactar:
Massimiliano Sani e Rui Esmael
Tel +258 21 481 181
email: maputo@unicef.org