O poder do teatro no combate à discriminação do HIV

O poder do teatro no combate à discriminação do HIV

Quando questionada sobre se casaria com um homem seropositivo com oito crianças, ela responde sem hesitar. "Quando se está apaixonado, pode-se casar com alguém com HIV mesmo que se seja negativo. Basta usar um preservativo."

Claudio Fauvrelle
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Beira, Sofala – Malua, de catorze anos de idade, apaixona-se por Ângelo de quinze anos, um colega da escola. Ele quer ter relações sexuais com ela, mas ela consegue convencê-los a esperar e continuam a sua amizade, apoiandose mutuamente nos estudos.

No entanto, quando o pai de Malua descobre sobre Ângelo, entra em pânico porque quer que a sua filha case com um amigo de 40 anos que tem muito dinheiro para lhe pagar um bom lobolo, um tipo de dote de casamento. Ele diz à mãe de Malua que a sua filha tem de sair da escola para casar com um homem mais velho.

Os pedidos desesperados da mãe de Malua para que a filha continue na  escola caiem em ouvidos moucos e tornam o seu marido agressivo. Malua está devastada mas é obrigada a deixar os estudos, abdicar do rapaz de quem gosta e casar com o homem mais velho. Após alguns anos, o marido morre vítima de doença relacionada com o SIDA, deixando-a também infectada com HIV.

Por acaso, Ângelo cruza-se com ela. De início não reconhece Malua, que envelheceu bastante, mas quando a reconhece, declara-lhe o seu amor eterno. Malua sente o mesmo mas explica que tem oito filhos para cuidar e que é seropositiva. Ângelo desiste dela. A história de Malua é uma peça de teatro encenada para uma multidão atenta no mercado de Munhava, o subúrbio mais populosos da Beira na província de Sofala, num sábado à tarde.

Até 2006, cerca de 65.000 pessoas em 10 províncias foram abrangidas por 101 grupos de teatro.

“O que faria você se fosse Malua? Conseguiria convencer Ângelo a ficar?” pergunta um dos membros do grupo de teatro de Kurarama ao público motivado. O público tenta, à vez, vestir as roupas de Malua e  convencer Ângelo a ficar com ela. Tanto mulheres como homens estão ansiosos por participar no teatro.

Lembram-se bastante bem do guião, representando com entusiasmo. A maioria não consegue mudar o curso da peça apesar dos seus esforços ansiosos. 

Inês, de vinte e três anos de idade, voluntaria-se para participar na peça. Ela argumenta, de forma  persuasiva, que é importante deixar Malua continuar a estudar, realçando o valor da educação. O membro do grupo de teatro que faz o papel do pai olha para ela como se estivesse a mudar de ideias. No entanto, é o público que tem de decidir se os argumentos de Inês são convincentes.

O actor pergunta à multidão, “A Inês mudou a situação?” A multidão concorda. “Sim,” gritam entusiasmados. A rapariga recebe uma T-shirt de recompensa. Inês, casada e com um bebé, diz que ela sempre soube que a educação é importante. Apesar de ter desistido da escola mais cedo do que queria, na oitava classe, planeia regressar aos estudos com o marido.

“Conheço muitas raparigas que casam cedo e desistem dos estudos, mas isso não é bom.” Lucas Castigo, o director do grupo de teatro, diz que os actores, que são todos voluntários, fazem cerca de quatro apresentações por mês na comunidade sobre muitas questões tais como HIV e SIDA, educação das raparigas, direitos das crianças, saúde e higiene. Caso seja necessário, como durante a recente epidemia de cólera, fazem duas apresentações por semana.

Este tipo de teatro participativo, fundado pelo produtor de teatro brasileiro Augusto Boal é conhecido por “Teatro do Oprimido”, devido ao uso das experiências da vida real e da forma como explora, de forma colectiva, os problemas enfrentados.

A Responsável do Programa de Comunicação no UNICEF Patrícia Portela de Souza diz que este método é particularmente eficaz em Moçambique, onde a maioria das pessoas não tem acesso facilitado a meios de comunicação electrónicos. “Ensina as pessoas a procurarem as suas próprias soluções para os seus problemas,” diz ela .

A Rede de Teatro Comunitária de Moçambique, com o apoio do UNICEF, adoptou este método participativo. Até 2006, cerca de 65.000 pessoas em 10 províncias foram abrangidas por 101 grupos de teatro. Lucas diz que para além da participação activa da comunidade, o empenho dos próprios actores é a chave para o sucesso. “Eu participo porque quero melhorar a vida do meu povo.”

Gentilde Silva Julião, de vinte e três anos, que faz o papel de Malua, parece representar com o coração. Ela é uma estudante que espera vir a ser médica. Ela tem ideias fortes sobre o que Malua deveria fazer. “Malua deveria ter persuadido Ângelo a ficar com ela. Não se deve discriminar alguém porque é seropositiva,” diz ela.

Quando questionada sobre se casaria com um homem seropositivo com oito crianças, ela responde sem hesitar. “Quando se está apaixonado, pode-se casar com alguém com HIV mesmo que se seja negativo. Basta usar um preservativo.”


Para mais informações, favor contactar:

Gabriel Pereira
Tel +258 21 481 181
email: maputo@unicef.org

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A Rede de Teatro Comunitária, com o apoio do UNICEF, usa um método participativo

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