Desfrutando de um banho de chuveiro pela primeira vez

Veronica, with her baby seeing water coming out of the tap for the first timeNo ano passado (2015), Verónica Nhamassa, de 25 anos, teve água canalizada em casa pela primeira vez na sua vida. Ela vive com o marido e a filha de 19 meses, Eulisia, numa casa de um quarto na zona peri-urbana de Jangamo, em Inhambane, província árida do sul do país.

Nhamassa demonstra orgulhosamente como a água corre das torneiras do seu novo lavatório e do chuveiro acabado de instalar num pequeno compartimento que tinha construído no ano anterior. Ela recolhe cuidadosamente toda a água numa caneca de modo a não desperdiçá-la.

“Antes eu tinha que ir buscar água num balde à casa do meu cunhado e tomava banho de balde. Eu gosto muito do banho de chuveiro. É muito mais fácil do que tomar banho de balde e poupa tempo e água. Também é muito barato, muito mais barato do que o fornecedor privado de água”. Ela então exibe a sua nova casa de banho. “Isto também é muito melhor do que a latrina que eu tinha lá fora.”

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EXARQUE MAMBO, de 13 anos, é uma criança repórter de rádio em Inhambane. Ele enfatiza como é difícil não ter acesso à água potável em casa.
"O meu amigo Carlos tem que ir buscar água antes de ir para a escola porque não tem água canalizada em casa. Está a sofrer muito; às vezes chega atrasado à escola porque foi procurar água" — Exarque, 13.

A família de Nhamassa vive numa pequena vila da província de Inhambane e beneficiou de um programa do Governo, implementado em parceria com o UNICEF e a União Europeia, para instalar um sistema de abastecimento de água canalizada ao nível do domicílio. Isto significa que tem água corrente dentro de casa ou numa torneira no quintal a preços acessíveis.

“Embora a cobertura de água e saneamento seja melhor nas zonas urbanas do que nas rurais, o acesso à água nas pequenas vilas é na verdade mais baixo do que nas duas zonas,” explica Chris Cormency, Chefe da Secção de Água, Saneamento e Higiene (Water, Sanitation and Hygiene - WASH) do UNICEF. Além disso, “ter acesso aos serviços de água, saneamento e higiene é crucial para alargar os serviços sociais e o desenvolvimento nos centros de rápido crescimento populacional. O apoio do UNICEF contribui para garantir que o acesso melhorado seja sustentável e equitativo, chegando até às zonas mais pobres da comunidade.”

Para os que vivem em zonas urbanas não planeadas onde é impossível instalar água canalizada, foram criados quiosques de venda de água em locais estratégicos, tornando-se muitas vezes parte da venda nas lojas de outros artigos e onde as pessoas da vizinhança podem ter acesso à água potável barata.

Embora ao nível nacional a proporção de pessoas sem acesso a fontes de água melhoradas tenha reduzido de 65 por cento em 1990 para 49 por cento em 2015, nas zonas rurais, uma em cada cinco pessoas ainda usa água de superfície como principal fonte de água para beber. Além disso, Moçambique possui taxas de defecação a céu aberto mais elevadas do que qualquer outro país da África Subsaariana (39 por cento), enquanto 79 por cento da população não tem acesso a saneamento melhorado, 90 por cento nas zonas rurais e 58 por cento nas zonas urbanas e periurbanas.

As doenças provocadas pela água e as doenças associadas ao mau saneamento e higiene constituem um problema significativo em Moçambique. A título de exemplo, em 2015 registaram-se 8.858 casos de cólera, com 65 óbitos em 21 distritos de seis províncias. As crianças de tenra idade estão particularmente em risco. Apesar das reduções verificadas na mortalidade infantil, 97 crianças menores de 5 anos morrem por 1.000 nados vivos e as doenças diarreicas continuam a constituir uma das principais causas de morte de crianças. As evidências sugerem ainda que o programa de água, saneamento e higiene (WASH) é uma intervenção essencial na redução da desnutrição crónica; 43 por cento de crianças menores de 5 anos sofrem de desnutrição crónica aguda ou moderada em Moçambique.

As mulheres e raparigas são particularmente vulneráveis devido à escassez de serviços de água, saneamento e higiene. Por exemplo, as raparigas perdem tempo de escola, pois têm que ir buscar água, por vezes tomando até duas horas do seu tempo e estão especialmente em risco de agressão sexual se tiverem que ir à casa de banho à noite. Às crianças com deficiência pode ser negado o acesso à educação numa escola se não existirem instalações de água, saneamento e higiene acessíveis ou se estas forem inadequadas.

“Utilizamos todos os meios de comunicação, em particular a rádio, debates e visitas domiciliárias, para persuadir as pessoas a mudar esse comportamento, entender a importância de não apenas ter acesso à água, mas também a um bom saneamento melhorado e a praticar uma boa higiene” – Juvencio Nhaule, UNICEF.

Para beneficiarem da instalação de água canalizada, as famílias das zonas periurbanas e das pequenas vilas têm de possuir pelo menos uma latrina melhorada fora das suas casas. Contudo, tal como assinala Juvêncio Nhaule, o especialista em Água, Saneamento e Higiene do UNICEF em Inhambane, “Envolver as pessoas em novas práticas colectivas, tais como a construção de latrinas melhoradas ou a instalação de sanitários com autoclismo tem sido a parte mais desafiadora do programa. Utilizamos todos os meios de comunicação, em particular a rádio, debates e visitas domiciliárias, para persuadir as pessoas a mudar esse comportamento, entender a importância de não apenas ter acesso à água, mas também a um bom saneamento melhorado e a praticar uma boa higiene.”

Carolina Guirrugo é uma activista que faz visitas domiciliárias para educar as pessoas sobre boas práticas de higiene e sobre a importância de utilizar uma casa de banho. Ela conseguiu convencer a maior parte das pessoas a construir latrinas, mesmo as que tinham pouco dinheiro. Ela diz que a formação apoiada pelo UNICEF, que teve lugar em 2016, ajudou-a a desenvolver mensagens fundamentais para a comunidade e também a orientou em como incentivar as pessoas a criar grupos de poupança, de modo a estarem em condições de pagar a construção de uma casa de banho. Nestes fundos rotativos, cada pessoa contribui com um certo valor todas as semanas; os resultados são guardados num fundo comum para que cada membro possa efectuar um pagamento único para construir uma casa de banho.

Farida Sileimane, mãe de cinco filhos, diz que se não tivesse sido encorajada a juntar-se aos seus vizinhos para reunir fundos, não teria conseguido construir uma casa de banho. Isso significava que tinha que trabalhar mais no campo agrícola de uma outra pessoa. “Vale a pena. Agora tenho uma latrina melhorada e uma torneira de água no meu quintal. A latrina antiga (tradicional) não era boa e a área à volta era muito escorregadia. Sei que esta é melhor para a nossa saúde e agora tenho água canalizada.” Ela abastece-se de água a partir de uma torneira no quintal.

De facto, Guirrugo diz que a sua mensagem-chave é sobre uma boa saúde. “Dizemos às pessoas que as moscas que poisam em fezes descobertas hão-de voltar para a comida delas”.

Guirrugo ganha 1.000 meticais por mês (menos de US$ 20) pelas actividades de sensibilização que realiza. “Eu gosto deste trabalho pois aprendo muito e consigo partilhar esta informação com a minha comunidade”.”

“Agora tenho uma latrina melhorada e uma torneira de água no meu quintal. Sei que esta é melhor para a nossa saúde e agora tenho água canalizada" — Farida Sileimane, Mãe de cinco filhos.

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