Combater a Desnutrição Infantil em Todas as Frentes

Adolfo Guambe with baby Laura and APE, Judith, talking to Hortencia who is holding her other twin, Albert.

Raquel Meque, de 19 anos, mãe de uma menina de 4 anos e de um menino de 1 mês, percebe como a desnutrição é perigosa.

Ela lembra como no ano passado a sua filha, Vina, adoeceu e as pernas começaram a inchar. “Pensei que ela estivesse a perder sangue, então levei-a ao curandeiro, que me deu um pó para pôr na comida para limpar o corpo dela”.

O pó provocou diarreia em Vina e não reduziu o inchaço nas pernas nem a fez comer. Raquel esperou mais dois dias, mas quando viu que Vina estava a piorar, levou-a às pressas para o centro de saúde mais próximo.

A nutricionista, Laurinda Sardinha, explicou que Vina sofria de marasmo, uma forma grave de desnutrição aguda, que era complicada ainda mais pela malária. Vina foi hospitalizada imediatamente no centro de saúde em Chitima, distrito de Cahora Bassa, na província de Tete, ao norte de Moçambique. Durante três semanas, além do tratamento da malária, Vina recebeu leite terapêutico e uma mistura de alta energia à base de amendoim, que é fornecida pelo UNICEF através das unidades sanitárias.

When asked about the causes of malnutrition, young reporters Clayton Banda, 15, and Rosa Azeite, 15, know about the importance of a balanced diet as well as good sanitation and hygiene.
Quando se fez a pergunta sobre as causas da desnutrição, os jovens repórteres Clayton Banda, de 15 anos, e Rosa Azeite, de 15 anos, mostraram que conhecem a importância de uma dieta equilibrada, bem como de um bom saneamento e higiene.
“Se uma criança tiver uma dieta equilibrada, mas depois tiver diarreia por falta de higiene e saneamento, o peso que tiver ganho acabará por diminuir” — Clayton, 15.

Hoje, no pátio do centro de saúde movimentado, Vina é uma menina diferente. Parece haver uma ligação especial entre Vina e a nutricionista, Sardinha, que está a trançar-lhe o cabelo sempre que consegue que ela fique sossegada durante alguns minutos.

De acordo com Sardinha, o distrito de Cahora Bassa apresenta cerca de 800 casos de crianças que estão a ser tratadas como pacientes ambulatórios de desnutrição aguda. Além destes casos de desnutrição aguda moderada e grave, os níveis de desnutrição crónica em certos distritos e em todo o país são um grande desafio.

Quase metade de todas as crianças sofrem de desnutrição crónica em Moçambique, a nona taxa mais elevada de África. O Dr. Benedito, especialista em nutrição do UNICEF, diz que estas crianças “sofreram de desnutrição crónica em resultado de uma nutrição de má qualidade e de factores ambientais, tais como saneamento deficiente. Tragicamente, se uma criança não receber cuidados durante a janela crítica de 1.000 dias, o seu crescimento físico e cognitivo será irreversivelmente prejudicado”. Fábula da Silva, Directora de Nutrição do Ministério da Saúde na província de Tete, ressalta que embora os serviços sociais tenham melhorado, ainda se verifica a necessidade de um melhor abastecimento de água potável e de instalações sanitárias ao nível dos agregados familiares, já que muitas famílias ainda não possuem sanitários e algumas ainda têm que cavar nos leitos secos dos rios para obter água para beber. Ela acrescenta que as famílias também precisam mudar o seu comportamento, particularmente em torno das práticas de alimentação infantil. Embora as taxas de aleitamento materno sejam boas, a amamentação exclusiva nos primeiros seis meses ainda constitui um desafio. “As mães muitas vezes amamentam enquanto caminham ou estão a fazer trabalhos domésticos e o bebé não consegue alimentar-se devidamente. Quando o bebé chora, a avó diz que está com fome e precisa de shima (farinha de milho), a mãe dá shima ao bebé, que tem menos de seis meses”.

Da Silva acrescenta que a elevada prevalência de mães adolescentes também contribui para a existência de altos níveis de desnutrição. “Muitas raparigas começam a ter filhos por volta dos 15 anos de idade, antes de estarem prontas física e mentalmente e isso pode levar a bebés de baixo peso que tendem a ser mais vulneráveis a doenças e à desnutrição”. Por conseguinte, a desnutrição deve ser abordada em todas as frentes. Para tal, Moçambique aprovou um Plano de Acção Multi-sectorial para a Redução da Desnutrição Crónica (PAMRDC) em 2010, coordenado pelo Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e Nutricional (SETSAN) do Ministério da Agricultura, em colaboração com representantes do Governo dos sectores da Educação, Saúde e Água, Saneamento e Higiene.

Rosa é diferente de muitas raparigas de Tete e, na verdade, de muitas partes de Moçambique. Ela ainda está a frequentar a escola e está a pensar na sua futura carreira, e não em ter filhos.
"As mães devem practicar a amamentação exclusiva e devem procurar dar aos seus bebés uma dieta equilibrada adequada à idade e não devem ter filhos ainda jovens" — Rosa, 15.

Raquel Meque with her daughter Vina No sector da Saúde e Nutrição, o foco do Governo incide na promoção da amamentação exclusiva e na preparação de alimentos nutritivos, bem equilibrados e adequados à idade. “A alimentação infantil melhorou nos últimos anos, particularmente com a ajuda de voluntários que aprenderam a preparar alimentos nutritivos, muitas vezes depois de os seus próprios filhos terem sido tratados por problemas de desnutrição”, diz da Silva. “Eles fazem demonstrações de preparação de alimentos e outras actividades ligadas à nutrição na comunidade e nas unidades sanitárias”.

Além disso, diz da Silva, uma vez que os curandeiros tradicionais têm uma influência tão grande nas zonas rurais, o Governo, com o apoio do UNICEF, realiza sessões de formação regulares para eles. No ano passado, uma acção de formação de 14 dias para curandeiros focou em como identificar e referir casos de desnutrição. “Ensinamos a reconhecer doenças da infância, incluindo a desnutrição, e enfatizamos a importância de referir os pacientes às unidades sanitárias, permitindo-lhes, se necessário, ‘limpar a criança dos espíritos malignos’ depois de terem sido tratadas”.

Ezequiel John, de 39 anos, que é curandeiro desde 2005, diz que acolheu de bom grado a formação no ano passado. “Aprendi que quando a medida do braço da criança está na zona amarela ou vermelha, devo preencher um formulário e mandar a criança para o hospital”. John acrescenta que embora saiba como tratar uma variedade de doenças, agora sabe encaminhar casos ao centro de saúde se a criança não estiver a melhorar.

No entanto, muitos curandeiros e mães não estão assim tão sensibilizados para os perigos da desnutrição em todas as suas formas. No caso de Vina, poderia ter significado perder a vida; em muitos outros, o resultado da desnutrição é que as crianças nunca atingirão o seu potencial físico ou cognitivo, uma perda para o indivíduo e para o país.

unicef nutrition work in Mozambique