Acabaram as longas esperas ansiosas

HIV AIDS Mozambique

No ano passado, Isabel, mãe de seis filhos, tinha sido preparada para mais uma espera longa e ansiosa para conhecer o estado serológico do seu bebé, Tomás. Ela lembra-se como em 2007 tinham sido necessários três meses até o resultado do teste do HIV do seu segundo filho ser enviado à sua clínica local. “Eu ia sempre ao centro de saúde e lá só me diziam que ainda não tinham recebido o resultado do teste,” diz Isabel. (Os nomes da mãe e do bebé foram mudados para proteger a sua privacidade).

Apesar de ter de se deslocar muitas vezes até ao centro de saúde, Isabel foi persistente. Já tinha perdido um filho aos três meses em 2004 antes de fazer o teste do HIV.

Porém, no ano passado a história foi diferente graças à tecnologia Point of Care (Local de Atendimento) recentemente introduzida que faz testes de HIV em bebés menores de 18 meses. A enfermeira conseguiu fazer análises do sangue do Tomás quando ele tinha apenas um mês de vida e disse à Isabel que ela receberia o resultado no mesmo dia. “Fiquei muito surpreendida quando a enfermeira me disse para me sentar e esperar pelo resultado,” disse Isabel. “Tinha medo do resultado, mas pelo menos não tive que esperar muito tempo para saber que ele era seronegativo. Fiquei muito aliviada.”

Rosy Manuel, 14, and Marcel Junior, 16, discuss issues they feel strongly about
Rosy Manuel, de 14 anos e Marcel Júnior, de 16 anos, discutem questões sobre as quais têm uma opinião muito forte. Ambos mencionam como as raparigas são mais vulneráveis ao HIV, como a discriminação contra as pessoas que vivem com o HIV continua a constituir um desafio e como os pais deveriam estar mais envolvidos na educação dos seus filhos.
“Acho que as raparigas que não vão à escola ou que desistem são particularmente vulneráveis, uma vez que estão sozinhas e são susceptíveis a todo o tipo de maus tratos” — Rosy, 14.

Seis meses mais tarde, Isabel levou o Tomás para ser pesado no Centro de Saúde da Ponta Gea na cidade da Beira, onde se senta com uma multidão de mães e os seus bebés, muitas a amamentar e que aguardavam a sua vez num espaço aberto, mas coberto. Algumas das mães trouxeram os seus bebés para fazerem o teste do HIV e outras para o controlo do peso. Uma a uma, entram na sala de consultas toda apinhada, mas as enfermeiras manuseiam a máquina Point of Care com destreza. Parece uma impressora de um computador e pode dar o resultado do teste do HIV em apenas 50 minutos.

A enfermeira Josefa Menezes é uma das principais utilizadoras desta máquina. No ano passado, ela participou numa formação de dois dias apoiada pelo UNICEF e diz que depois desta formação, acha que é fácil usar a máquina. Ela mostra-se muito empolgada quando explica como o seu trabalho se tornou muito mais fácil desde que começaram a usar a máquina Point of Care em Julho de 2016. “Antes tínhamos que mandar os testes para outro sítio e tínhamos que estar sempre a dizer às mães que ainda não tínhamos recebido os resultados e que elas deviam regressar noutro dia.

Houve uma fase em que levava até três meses para obter os resultados e nessa altura perdemos o controlo de algumas das mães e seus bebés. Algumas mudaram-se para outras zonas, outras não se registaram no centro de saúde e nós não sabíamos sequer se os bebés ainda estavam vivos.”

"Temos que incrementar a testagem com as máquinas Point of Care por todo o país” - Dr. Dezi Mahotas, UNICEF.

A Dra. Dezi Mahotas, Especialista em Saúde do UNICEF, destaca que a máquina Point of Care também trouxe outros benefícios. “A vida de muitas crianças foi salva porque se o resultado for positivo, nós podemos pô-las em tratamento imediatamente, enquanto antes muitas vezes só podiam ser tratadas depois de terem desenvolvido doenças relacionadas com o HIV e nessa altura muitas vezes já era demasiado tarde. Agora temos que incrementar a testagem com as máquinas Point of Care por todo o país.”

Em média, no Centro de Saúde da Ponta Gea cerca de 50 bebés que nasceram de mães seropositivas fazem o teste todos os meses e desses, cerca de cinco são seropositivos. “Não estamos satisfeitos com este resultado,” diz a enfermeira Menezes. “Só ficarei satisfeita quando todos os bebés forem seronegativos.” Ela acrescenta que um dos principais desafios é a falta de envolvimento dos pais. “As mulheres receiam que os seus parceiros as abandonem ou que falem mal delas na comunidade e as discriminem, pelo que algumas pura e simplesmente ocultam o seu estado e tomam os seus comprimidos em segredo.”

Rosy Manuel, 14, and Marcel Junior, 16, discuss issues they feel strongly about
Marcel é uma criança repórter na estação de rádio local da cidade da Beira, na província de Sofala, centro de Moçambique. O seu sonho é ser piloto, mas ainda frequenta a escola. Nos seus tempos livres, trabalha como produtor de rádio, tratando de questões relacionadas com os direitos da criança, incluindo a saúde sexual e reprodutiva.
“Os pais estão menos envolvidos nos cuidados das crianças porque trabalham fora de casa e alguns acham que esta é uma tarefa das mulheres. Mas não devia ser assim, porque é importante que o pai também participe; ele deve passar tempo a comunicar com os seus filhos” — Marcel, 14.
As opiniões de Marcel e Rosy são pertinentes. A falta de participação paterna na clínica materno-infantil local constitui um dos principais obstáculos na prevenção da transmissão vertical do HIV de mãe para filho (PTVHIV) para as enfermeiras das clínicas pré-natais e pós-natais. Muitas mulheres que vivem com o HIV ainda receiam que serão discriminadas e abandonadas pelos seus parceiros e algumas delas nem sequer revelam o seu estado serológico aos seus parceiros. No entanto, esta situação está a mudar lentamente e no ano passado foram registados avanços significativos na prevenção, diagnóstico e tratamento do HIV em recém-nascidos.

Menezes acrescenta que embora o estigma em torno do HIV tenha reduzido drasticamente, continua a existir. “Algumas mães preferem ir a um outro centro de saúde para receber a medicação pois receiam que algum conhecido as veja.” Ela afirma ainda que durante as discussões em grupo regulares com as mães seropositivas, surge sempre a questão do estigma do HIV e casos de discriminação. “Digo sempre às mães que o que quer que digam nos grupos deve permanecer no grupo e que não devem divulgar lá fora.”

Na consulta pré-natal, a enfermeira Inês Germano confirma que a falta de envolvimento dos pais constitui um problema. Ela explica que além das habituais mensagens de aconselhamento para as mulheres grávidas seropositivas – para aderirem ao tratamento anti-retroviral (TARV), darem à luz no hospital e praticarem o aleitamento materno exclusivo durante os primeiros seis meses – os profissionais de saúde também sublinham que as mulheres devem trazer os seus parceiros para o teste do HIV. Mas ela estima que cerca de 1 em cada 5 parceiros de mulheres seropositivas não conhecem o diagnóstico positivo do HIV do seu parceiro ou não se mostram solidários. “Alguns até batem nas suas mulheres e expulsamnas de casa. Temos que melhorar o nosso aconselhamento e conseguir o envolvimento de mais homens,” afirma a enfermeira.

“Quero manter-me saudável para cuidar dos meus filhos para que possam estudar,” - Isabel, Mãe seropositiva.

A enfermeira Germano assinala que o centro de saúde está a realizar esforços com vista a conseguir a sua participação. Por exemplo, na consulta pré-natal, uma mulher grávida que venha com o seu parceiro será atendida em primeiro lugar e os homens são também aconselhados sobre a importância de fazer o teste.

Entretanto, Isabel, que está a preparar-se para fazer uma viagem de 10 quilómetros para casa num transporte público, diz que o marido, cujo resultado do teste do HIV foi negativo na centro de saúde, se mostra solidário. Apesar disso, ela prefere ser tratada neste centro de saúde, e não no seu posto de saúde local. Também não revela o seu estado serológico aos amigos; a mãe, solteira, morreu quando ela era jovem.

Cerca de 1 em cada 5 parceiros de mulheres seropositivas não conhecem o diagnóstico positivo do HIV do seu parceiro ou não se mostram solidários. “Alguns até batem nas suas mulheres e expulsam-nas de casa. Temos que melhorar o nosso aconselhamento e conseguir o envolvimento de mais homens,” — Enfermeira Germano.

No entanto, ela diz que está grata ao apoio dado no posto de saúde. Todos os filhos dela são seronegativos e ela tem-se mantido saudável, conseguindo cumprir a sua medicação anti-retroviral. Além disso, apesar de longas horas num mercado a vender peixe, Isabel, que desconhece a sua idade, inscreveu-se na educação de adultos e à hora do almoço frequenta o equivalente à primeira classe do ensino primário. No entanto, o seu sonho para o futuro é sobreviver para o bem dos seus filhos. “Quero manter-me saudável para cuidar dos meus filhos para que possam estudar,” diz ela dando um beijo na testa do seu bebé.

unicef hiv aids work in Mozambique