O APE (Agente Polivalente Elementar) desempenha um papel crucial na redução da mortalidade materna e neonatal nas zonas rurais remotas

Adolfo Guambe with baby Laura and APE, Judith, talking to Hortencia who is holding her other twin, Albert.

Há seis meses, Belamina Judite, uma agente polivalente elementar, recebeu uma chamada telefónica de emergência de António Manuel. A esposa deste, Hortência, está grávida de gémeos e entrou em trabalho de parto antes de conseguir chegar ao hospital.

De imediato, Judite pôs-se a caminho durante uma hora por trilhos arenosos no meio de uma paisagem de coqueiros intermináveis até chegar à casa de Hortência, em Catine, uma localidade remota do distrito de Homoíne, na província de Inhambane, ao sul do país. Quando chegou, Hortência já tinha dado à luz uma menina em casa com a ajuda da sogra, mas o segundo bebé ainda estava dentro e mal se mexia.

Uma vez que o único transporte público do dia já tinha partido, Judite organizou um táxi particular ao preço de 1.000 meticais (cerca de 20 dólares americanos). Viajaram juntas pelas estradas acidentadas com a menina ainda ligada a Hortência pelo cordão umbilical. Hortência estava com fortes dores de parto devido ao segundo bebé que ainda não tinha nascido. Levaram quatro horas até chegar ao centro de saúde. “Tive que dizer ao motorista para ir devagar”, diz Judite.

Mardel Juma, a child radio producer in the capital, Maputo
Mardel Juma, uma criança repórter de rádio da capital Maputo e activista voluntário para a saúde sexual e reprodutiva, dá palestras nas escolas e centros comunitários para sensibilizar os mais jovens sobre as doenças evitáveis. No futuro, Mardel gostaria de continuar a fazer programas de rádio, mas também quer ser médico.
“Quero trabalhar nas zonas rurais porque há muitos médicos concentrados nas cidades” — Mardel, 14.

Quando chegaram ao centro de saúde, uma parteira atendeu a parturiente Hortência e Judite esperou durante quatro horas até que, finalmente, Hortência deu à luz a um rapaz. Mas porque o rapaz tinha dificuldades em respirar, Hortência e os bebés foram levados de ambulância para o hospital de Homoíne, a partir de onde Judite fez a viagem de regresso acasa sozinha.

Seis meses mais tarde, Judite tem nos braços a bebé Laura, que está a tentar brincar com o telemóvel (smartphone) de Judite, enquanto esta conversa com Hortência, que tem no colo o bebé Alberto. Os bebés têm um aspecto saudável e rechonchudo, desmentindo a sua chegada traumática no mundo.

Hortência também está com bom aspecto, embora se queixe de dores, o que não constitui surpresa, pois tem uma carga de trabalho pesada, que inclui ir buscar água duas vezes por dia, uma hora por cada deslocação. Além disso, Hortência é mãe de seis filhos e perdeu dois deles com menos de 5 anos por causa de “febres”, diz ela. “Morreram em casa porque nesses tempos não havia APE,” diz Hortência, que também teve um aborto espontâneo.

Enquanto conversam e brincam com os gémeos, é óbvia a relação calorosa existente entre Hortência e Judite. Hortência comenta que Judite cuidou muito bem dela durante a gravidez e visitou o filho dela depois de ter alta do hospital para lhe aplicar gel de clorhexidina para combater uma infecção do cordão umbilical. Depois disso, Judite visitou Hortência dia sim, dia não durante os primeiros 28 dias após o parto, um período crítico, já que mais de um terço de todas as mortes de crianças ocorrem durante os primeiros 28 dias.

Hortência admite “Ela (Judite) tinha-me dito para ir à casa de espera da maternidade no oitavo mês, mas não consegui.” Porém, Hortência fez três das quatro consultas pré-natais recomendadas no centro de saúde. Também se lembra muito bem da longa viagem até chegar ao centro de saúde. “Ela (Judite) dizia sempre ao motorista para ir devagar. E quando voltou para casa, telefonava-me regularmente no hospital para perguntar como eu estava.”

Os APEs também foram treinados para usar uma aplicação de saúde chamada “upScale” nos smartphones que lhes foram fornecidos, facto que melhorou a gestão de casos infantis.

Hortência é apenas mais uma de tantas que apreciam o trabalho dos agentes polivalentes elementares (APE). O Médico Chefe do Hospital de Homoíne, Milton Moçambique, diz “Precisamos de mais APEs porque desempenham um papel muito importante na redução da mortalidade materno-infantil.” Ele acrescenta que os APEs também foram treinados para usar uma aplicação de saúde chamada “upScale” nos smartphones que lhes foram fornecidos, facto que melhorou a gestão de casos infantis. “Conseguimos monitorizar a gestão de cada caso pelos APEs através da aplicação.” O programa do smartphone é implementado pelo Ministério da Saúde, com o apoio do Malaria Consortium e do UNICEF e o apoio financeiro da UKAID. Além de receber informação vital através do smartphone, que é usado para a prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças infantis, o APE deve lançar todos os dados sobre cada caso que tratar.

A enfermeira, Edita João, concorda que desde que começou a trabalhar como enfermeira pela primeira vez há 19 anos, viu uma enorme melhoria nos cuidados de saúde materno-infantil, em parte devido ao programa dos APEs. Ela destaca que “Os APEs estão a contribuir para o planeamento familiar e a sensibilizar as mulheres grávidas para terem o parto nos centros de saúde.”

No ano passado, o hospital de Homoíne reportou dois casos de mortalidade materna, um dos quais foi o de uma mulher que passou três dias em trabalho de parto e tinha procurado tratamento de um curandeiro antes de ir ao hospital. “O bebé nasceu com vida mas a mulher morreu 30 minutos depois,” disse a enfermeira Edita João.

Tal como acontece com os APEs por todo o país, Judite só tinha que saber ler e escrever e ser eleita pela comunidade para se qualificar para a formação como APE. O curso consiste de quatro meses de formação básica, mais duas semanas de formação em como usar a aplicação do smartphone, Comcare; em 2016 foram introduzidas mais duas semanas de formação, com o apoio do UNICEF, sobre como cuidar das mulheres grávidas e das novas mães e os seus bebés. Esta formação incluiu como usar o gel de clorhexidina para cuidar do cordão umbilical e misoprostol para prevenir e tratar a hemorragia pós-parto.

““Cerca de 60 por cento da população moçambicana vive a mais de oito quilómetros de uma unidade sanitária, um compromisso nacional de afectar os APEs nas comunidades remotas constitui uma medida crucial para melhorar o acesso aos cuidados de saúde” — James McQuenPatterson, UNICEF.

O Chefe da Saúde e Nutrição do UNICEF, James McQuenPatterson, destaca como os APEs contribuem para trazer a saúde para mais perto das pessoas necessitadas. “Uma vez que cerca de 60 por cento da população moçambicana vive a mais de oito quilómetros de uma unidade sanitária, um compromisso nacional de afectar os APEs nas comunidades remotas constitui uma medida crucial para melhorar o acesso aos cuidados de saúde.”

APE Judith with baby LauraEm relação a Judite, ela também aprecia o facto de ter sido seleccionada para ser APE. Embora o trabalho seja exigente – por vezes ela tem de caminhar cerca de três horas para fazer visitas domiciliárias e recebe apenas 1.200 meticais por mês (cerca de 20 dólares americanos) – diz que vale a pena. “Consegui melhorar a saúde da minha comunidade e também das minhas crianças.

“Agora sei diagnosticar e tratar crianças com febre e outras doenças em casa” — Judith, APE, Inhambane.

Lembra-se como, à semelhança de Hortência, perdeu dois dos seus filhos por causa de febres, possivelmente malária, um a caminho do hospital. “Agora sei diagnosticar e tratar crianças com febre e outras doenças em casa.” Também aprendeu a referir casos de malária, diarreia e pneumonia com complicações.

“Fez-me muita impressão que Hortência e Belamina (Judite) tenham perdido filhos numa altura em que não havia APE e agora com o programa de APE os seus filhos estão a sobreviver” — Adolfo Guambe, Oficial de saúde pública e coordenador dos APEs

Adolfo Guambe, oficial de saúde pública e coordenador dos APEs ao nível provincial, que aproveita a oportunidade para ajudar Judite a lançar alguns dados no smartphone dela, diz que se sente encorajado com o trabalho dos APEs. “Fez-me muita impressão que Hortência e Belamina (Judite) tenham perdido filhos numa altura em que não havia APE e agora com o programa de APE os seus filhos estão a sobreviver.”

Judite também se sente encorajada pelo número de mulheres que ela conseguiu convencer a dar à luz no hospital. “A maior parte das mulheres dá à luz no hospital”, diz ela.