A seca leva as crianças vulneráveis ao limite

UNICEF Emergência work in Mozambique

Maria Conforme, de 23 anos, está a tentar preparar os planos de aula enquanto o filho Júnior, de 2 anos, procura chamar a sua atenção. Os planos detalhados estão organizados em tabelas, em folhas de papel espalhadas numa esteira grande estendida no chão da sua casa de um quarto, contendo apenas algumas cadeiras de plástico e recipientes de água. Se ela não conseguir terminar os planos durante o dia, Maria terá de usar uma vela, pois não há electricidade.

Maria explica que tem um prazo a cumprir, uma vez que as aulas iniciam esta semana. O seu principal desafio é encontrar alguém que possa cuidar do Júnior enquanto dá aulas no turno da tarde.

Antigamente, Maria deixava o Júnior com o irmão, Elísio, de 10 anos, e com a avó, que vive a 80 quilómetros no distrito de Changara, província de Tete. Entretanto, não foi a distância que fez com que Maria mudasse os seus planos sobre quem iria cuidar da criança, mas sim o impacto da seca do ano passado sobre o Júnior.

A avó do Júnior, uma viúva que nunca foi à escola, depende do seu campo agrícola (machamba) para o seu sustento. Portanto, quando as colheitas falharam, acabou recorrendo aos vegetais da família que tinha secado no ano anterior. Não eram apenas os vegetais que tinham secado, mas também os nutrientes. Para piorar as coisas, Júnior ficou doente com febre e diarreia.

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Clayton Banda, criança repórter da rádio de Tete.
“Sofremos muito por causa da seca nesta província. Temos de prestar atenção aos avisos prévios” — Clayton, 14.

A avó telefonou à Maria para lhe dizer que ia levar o Júnior a um curandeiro, mas o estado de saúde do Júnior piorou. Equipada com saquetas de reidratação oral, Maria fez a viagem depois da última aula da semana. Ela encontrou o Júnior emaciado. “Fiquei chocada quando o vi”, diz Maria pois o peso do Júnior tinha baixado para 4,5 quilos aos 11 meses de idade.

Com o Júnior às costas, Maria fez a viagem de sete horas de regresso à casa a pé, em terreno montanhoso e usando transporte público sempre que houvesse. No centro de saúde local em Changara, Júnior foi diagnosticado com marasmo, uma forma grave de desnutrição e tinha também malária, pelo que teve que baixar no hospital durante um mês. Em média, em 2016 foram tratadas cerca de sete crianças por mês no hospital de Changara, onde Júnior esteve de baixa. Ao nível nacional, ao longo do ano passado, o UNICEF apoiou o tratamento de mais de 8. 000 crianças que sofriam de desnutrição aguda grave.

“Embora a seca do ano passado tenha sido provavelmente a pior dos últimos 30 anos, algumas províncias são afectadas por episódios de seca recorrentes todos os anos, pelo que temos de apoiar estas comunidades para que se tornem mais resilientes” — Tito Bonde, UNICEF.

Tete foi uma das províncias mais afectadas pela seca. Tito Bonde, Especialista em Emergência do UNICEF em Moçambique, salienta que o apoio do UNICEF inclui tornar as comunidades mais preparadas para as emergências. “Embora a seca do ano passado tenha sido provavelmente a pior dos últimos 30 anos, algumas províncias são afectadas por episódios de seca recorrentes todos os anos, pelo que temos de apoiar estas comunidades para que se tornem mais resilientes,” diz Bonde. Ele dá o exemplo de como em 2017 o UNICEF apoiará mais comunidades afectadas pela seca para que tenham melhor acesso à água potável através da recuperação e melhoramento dos locais de abastecimento de água comunitários em 68 comunidades afectadas pela seca, incluindo 11 em Tete.

"A pasta de amendoim tem sido extremamente eficaz no tratamento da desnutrição aguda grave. Normalmente, a criança recupera totalmente dentro de 6 a 8 semanas" — Mathieu Joyeux, UNICEF.

No que diz respeito à nutrição, Mathieu Joyeux, Especialista em Nutrição do UNICEF, destaca que a seca não é a principal causa da desnutrição, “É por isso que a abordagem multi-sectorial do governo é fundamental para resolver problemas da desnutrição. Por isso, o UNICEF apoia os esforços do governo que visam promover as boas práticas de alimentação de bebés e crianças, fornecer água potável e bom saneamento, bem como providenciar o acesso rápido aos cuidados de saúde, em especial facultar o diagnóstico rápido e tratamento de doenças da criança e HIV.”

O tratamento rápido é crucial à sobrevivência. Embora a maior parte dos casos de desnutrição aguda grave sejam tratáveis, Iracema Gonçalves, a nutricionista do distrito de Changara, diz que algumas crianças perdem a vida porque as mães levam as crianças demasiado tarde ao centro de saúde. “Normalmente vão primeiro ao curandeiro e só vêm para aqui quando o estado de saúde da criança tiver piorado.”

É o que aconteceu com o Júnior, mas felizmente ele respondeu bem ao tratamento. Quando Júnior teve alta, a mãe, Maria, continuou o tratamento em casa à base de pasta de amendoim fortificada com micronutrientes que ele pode chupar directamente dos pacotes. “A pasta de amendoim tem sido extremamente eficaz no tratamento da desnutrição aguda grave, pois possui a vantagem acrescida de poder ser administrada em casa com acompanhamento regular nos centros de saúde; só as crianças com complicações como a malária necessitam de tratamento hospitalar.

Normalmente, a criança recupera totalmente dentro de 6 a 8 semanas,” diz Joyeux. Maria também recebeu um pacote de cereal, soja e feijão triturados. Maria diz que já não quer mandar o Júnior para a casa da avó quando as aulas recomeçarem. A vizinha dela pode ser a melhor opção. Ela já ajuda a cuidar do Júnior quando Maria vai buscar água cinco vezes por dia a um fontanário situado a cerca de 15 minutos a pé da sua casa, o que ocupa uma boa parte da sua manhã. “Tenho que arranjar alguém para cuidar dele em minha casa, porque agora tenho muito medo de lhe mandar para longe,” diz ela enquanto o Júnior se aconchega a ela, com um amplo sorriso.