Os conselhos de escola impedem as crianças de desistir


Jeni sitting in her classroomJeni Tito, de 14 anos, disse que tinha dificuldades em frequentar a escola de estômago vazio e sem uniforme e material escolar. Por isso, no ano passado quando começou uma relação com um rapaz e engravidou decidiu abandonar a escola. “A minha mãe ficou zangada e queria que eu trouxesse o rapaz, mas ele desapareceu.”

São férias escolares e Jeni veio à escola dela, a Escola Primária Completa (EPC) Lobo, em Nicoadala, a cerca de 45 quilómetros da capital provincial, Quelimane, situada na província da Zambézia, norte do país.

Bem vestida com uma saia de ganga e camiseta, Jeni senta-se num banco estreito de madeira pouco seguro na sua sala de aula, que foi construída pelos pais utilizando madeira e barro. Quando chove, a chuva entra pelos buracos das estacas de madeira mas hoje, felizmente, não está a chover.

A Jeni coloca a pasta grande ao lado dela, e não no chão de terra batida. A pasta foi comprada pela avó, que agora é responsável pela Jeni e pela irmã mais nova, Ruth, de 10 anos, uma vez que a mãe delas está muito doente. “Eu tive a pasta e a Ruth teve o uniforme,” disse Jeni com orgulho.

A Jeni perdeu o bebé aos dois meses de gravidez. “Depois quis voltar à escola, mas tive vergonha. Disse à minha amiga que estava grávida e ela disse a toda a turma.”

Educação in mozambique
Laucenia Luis, de 15 anos, é uma criança repórter em Quelimane. Ele já está no segundo ano da universidade. No entanto, ela está ciente de que a maioria das crianças não teve as mesmas oportunidades que ela.
“Nas áreas urbanas, a pobreza faz com que alguns pais enviem seus filhos para trabalhar quando deveriam estar na escola... e nas áreas rurais algumas crianças não têm boas condições para aprender. Algumas estão aprender em baixo das árvores” — Laucenia,15.

Depois de dois meses em casa, Jeni recebeu uma visita de um membro do conselho de escola. Esse elemento disse-lhe que devia voltar à escola. “Disse-me que eu não podia ficar em casa sem fazer nada e que se eu não fosse à escola, ele viria pessoalmente à minha casa buscar-me,” disse Jeni. Embora Jeni se mostrasse apreensiva em relação a regressar à escola, foi muito mais fácil do que ela pensara. “As outras crianças trataram-me bem, como se eu fosse amiga delas.”

Jeni é uma das 39 crianças a quem o conselho de escola – constituído por membros da comunidade, pais, professores e alunos – conseguiu trazer de volta à escola em 2016. A presidente do conselho de escola, Fina Viano, explica que na maioria dos casos, a fome e a falta de material escolar tinha levado as crianças a desistir da escola. “O ano passado foi particularmente mau devido à fome causada pela seca. Nos outros anos, mais raparigas tendem a desistir da escola, especialmente quando as mães as mantêm em casa para cuidarem dos mais novos enquanto elas estão nos campos agrícolas. Tentamos educar as mães para não fazerem isso,” diz Viano.

Manter as crianças nas escolas constitui um desafio para todo o país. Apesar dos avanços registados no nível de ingressos no ensino primário, menos de metade das crianças concluem o ensino primário; muitas desistem nos primeiros cinco anos. Cerca de 1,2 milhões de crianças encontram-se actualmente fora da escola. De acordo com a avaliação da aprendizagem nacional de 2013, apenas 6,3% dos alunos da terceira classe tinham competências básicas de leitura.

A Chefe da Educação do UNICEF, Iris Uyttersprot, ressalta o papel importante desempenhado pelos conselhos de escola. "O UNICEF dá apoio técnico ao Ministério da Educação que, por sua vez, oferece treinamento para os conselhos de escolas. Já estamos a ver resultados encorajadores, particularmente no caso de crianças vulneráveis que recebem esse incentivo e apoio crítico para permanecer na escola. Além disso, os conselhos de escola também estão a contribuir com o seu tempo para as atividades de administração escolar ".

Joao Borges, 15, who is in Grade 10 at a school in Quelimane
Joao Borges, de 15 anos, que está no 10º ano numa escola em Quelimane, e também é criança repórter, ressalta que os órfãos são particularmente vulneráveis.
“Eles não têm seus pais para demonstrar interesse em sua escolaridade. Digo isso porque tenho um amigo que perdeu a sua mãe, o seu pai o abandonou e a família onde ele permanece não o aceita. Mas ele é um poeta talentoso. Muitos poemas dele se relacionam com a sua vida. Ele se expressa através dos seus poemas” — Joao, 15.

Uma das primeiras prioridades na escola da Jeni é torná-la mais propícia à aprendizagem. Viano destaca a construção de má qualidade das escolas e o facto de os alunos mais novos terem de receber aulas debaixo das árvores. “No ano passado, tivemos uma reunião com os pais e pedimos que trouxessem blocos para a escola para ajudar a fazer as fundações das novas salas de aula. Depois vamos contratar construtores locais da comunidade para terminarem o trabalho,” explica Viano.

O dinheiro para a construção virá de um fundo do Estado (Apoio Direto para Escola – ADE) que é gerido pelo conselho de escola e pela direcção. “Este fundo é importante porque permite que a escola funcione sem ter que pedir aos pais, muitos dos quais são agricultores de subsistência e não têm dinheiro para contribuição substanciais", explica Uyttersprot.

Além de melhorar as salas de aula, o conselho também poupa dinheiro para comprar material escolar para as crianças vulneráveis que são identificadas pelos professores. Para ajudar a garantir a transparência, o conselho tem três comissões constituídas por membros do conselho de escola: uma comissão é responsável por planificar como gastar o dinheiro, a segunda é responsável pelas compras e a terceira comissão recebe e controla a utilização do material escolar.

No ano passado, os professores identificaram 197 alunos de um total de 858 como vulneráveis, sendo a Jeni um deles. Viano visita Jeni com regularidade. “A casa dela está em muito mau estado, acho que não vai aguentar as chuvas,” diz Viano.

Uma vez que a mãe da Jeni, mãe solteira, está tão doente, a Jeni está a realizar mais tarefas domésticas, que incluem ir buscar água do fontanário público antes de ir para a escola às 6 da manhã. Não têm casa de banho nem electricidade e quando chove, a água entra para dentro de casa. “A mãe dela está tão doente que não se consegue levantar sozinha. Estamos a rezar por ela,” diz Viano.

O director da escola, Carlos Lisboa, conversa com a Jeni, destacando a importância de ela continuar na escola. Acrescenta que apesar das dificuldades, é fácil mobilizar a comunidade, uma vez que todos querem uma escola melhor para os seus filhos. “Temos de caminhar para a frente,” diz ele.

Jenni também está determinada a caminhar para a frente e diz que agora quer continuar na escola. “Não quero casar-me. Quero saber ler e escrever primeiro para poder viver bem neste mundo.”

“Devemos sensibilizar os pais de que devem manter os filhos na escola, em especial nas zonas rurais. As raparigas tendem a desistir devido ao casamento prematuro, pobreza e gravidez precoce. Não é fácil estudar quando a pessoa está grávida" — Iris Valéria da Silva Jamal, 14 anos, criança repórter de Nampula.
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