O Poder da Rádio: Ouro Negro

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António, de 43 anos, pai de seis filhos, não precisou de encorajamento para falar sobre a sua experiência ao vivo na rádio desde que não tivesse que revelar o seu nome verdadeiro. “Queria contar a minha história para que os outros possam aprender do meu erro,” diz ele, com um ar um pouco embaraçado.

António (nome fictício) veio para o estúdio da rádio comunitária escassamente mobiliado, localizado no distrito rural de Namialo, na província de Nampula. Inspirado pelo Ouro Negro, uma radio novela nacional transmitida semanalmente e lançada em Julho de 2015 com o apoio do UNICEF, António informa por que contou a sua história ao vivo e o impacto que a sua história teve.

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Iris Valéria da Silva Jamal entra no estúdio de rádio colorido com cores garridas, coloca a pasta da escola numa mesa e inicia uma discussão animada sobre o poder da rádio. Iris faz parte de um grupo de crianças repórteres e produtores de rádio da Rádio Moçambique, no centro da cidade de Nampula, província de Nampula.
“Não acho apenas que a rádio possa mudar o comportamento das pessoas – tenho a certeza disso, afirma Iris, de 14 anos, que fala com a autoridade de um adulto. Ela trabalha em programas de rádio produzidos por crianças há sete anos. “A rádio tem um papel fundamental a desempenhar na educação dos pais sobre os direitos de uma criança” — Iris, 14.

Não acho apenas que a rádio possa mudar o comportamento das pessoas – tenho a certeza disso, afirma Iris, de 14 anos, que fala com a autoridade de um adulto. Ela trabalha em programas de rádio produzidos por crianças há sete anos. “A rádio tem um papel fundamental a desempenhar na educação dos pais sobre os direitos de uma criança

António descreve como disse aos ouvintes que tinha tido um relacionamento sexual fora do casamento. “Contei como tive problemas com a minha mulher e como a outra mulher me disse que estava a usar contracepção (na forma de ervas tradicionais). Mas não resultou e ela engravidou. Queria alertar as pessoas que se tiverem um relacionamento, em particular se for de risco como no meu caso, devem usar o preservativo para evitar gravidez.”

Para cada programa ao vivo, Carlitos Sabonete, o produtor da rádio comunitária local da comunidade de António, diz que as mensagens de texto não param de entrar, desencadeando o debate e muitas vezes fazendo com que a pessoa que contou a sua história reflicta sobre a sua experiência. No caso de António, diz Sabonete, “Os ouvintes salientaram que ele não devia apenas preocupar-se com a prevenção da gravidez, mas também devia prevenir-se do HIV e de outras doenças transmitidas sexualmente; um outro ouvinte falou da importância de ser fiel à sua esposa.”

António admite que os ouvintes fizeram-no pensar mais sobre a sua situação e sobre os riscos que correu. Também se mostra receptivo ao Oficial de Protecção da Criança do UNICEF, Jeremias Muanatraca, que lhe pergunta se registou o nascimento da criança.

António diz que se mostrou relutante em assumir a responsabilidade pela criança e quando lhe perguntaram quantos filhos tinha, ele não conta o filho com a outra mulher, acrescentando “Tenho medo de me levarem ao tribunal.” Muanatraca tranquiliza-o e diz-lhe que se ele registar e sustentar a criança, que já tem dois anos, não será assim. “O nascimento do seu filho tem de ser registado, é um direito fundamental e deve cuidar dele uma vez que também é um dos seus filhos e tem os mesmos direitos aos serviços que os outros,” diz Muanatraca.

Embora os programas ao vivo abordem questões relevantes a homens e mulheres, Sabonete diz que até agora, nenhuma mulher partilhou a sua história ou enviou uma mensagem de texto, registando que estes programas ao vivo iniciaram recentemente.

De volta à cidade de Nampula, os produtores de rádio assinalam que embora as mulheres estejam a participar, por vezes não comparecem e também tendem a não enviar mensagens de texto durante os programas ao vivo.

Uma das mulheres que participou nos programas ao vivo em Nampula, Isabel Assane, camponesa, argumenta “As mulheres estão demasiado ocupadas a cuidar dos filhos e do marido. Não têm tempo de ir para a rádio.” Ela pensa durante uns instantes e depois acrescenta “e os homens são ciumentos. Eles acham que se estivermos na rádio com um produtor do sexo masculino, isso significa que temos algum tipo de relacionamento com ele.”

Abdul Alai, um produtor da Rádio Moçambique em Nampula, afirma que estão cientes deste desafio e que num workshop recente, que contou com o apoio do UNICEF, procuraram formas de ser mais inclusivos, particularmente para inspirar uma maior participação das mulheres e também das pessoas com deficiência, incluindo a contratação de uma nova apresentadora para o programa.

"O radio novela Ouro Negro já tem cerca de 1,5 milhão de ouvintes, incluindo os das zonas rurais remotas. Agora a tarefa é alargar essa cobertura, por exemplo, através de programas radiofónicos ao vivo nas línguas locais e conseguir uma maior participação de grupos difíceis de abranger" - Yolanda Nunes Correia, UNICEF.

A Chefe da Comunicação para o Desenvolvimento do UNICEF em Moçambique, Yolanda Nunes Correia, destaca, porém, que o programa tem um grande potencial. “Promove competências familiares fundamentais, desafia práticas prejudiciais como o casamento prematuro e ao mesmo tempo entretém. O radio novela Ouro Negro já tem cerca de 1,5 milhão de ouvintes, incluindo os das zonas rurais remotas. Agora a tarefa é alargar essa cobertura, por exemplo, através de programas radiofónicos ao vivo nas línguas locais e conseguir uma maior participação de grupos difíceis de abranger.”

Alai salienta que estão a registar avanços particularmente com os programas ao vivo. “Estes programas são populares, têm uma grande cobertura – especialmente nas zonas rurais – e já estão a abranger mais pessoas, uma vez que são transmitidos na língua local e são adaptados à nossa realidade na província.”

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"Num workshop recente, que contou com o apoio do UNICEF, procuraram formas de ser mais inclusivos, particularmente para inspirar uma maior participação das mulheres e também das pessoas com deficiência" — Abdul Alai, Produtor de Rádio.