A rádio ajudou-me a sair do meu casamento prematuro

A rádio ajudou-me a sair do meu casamento prematuro

A história de Mariamo, 17 anos.

Claudio Fauvrelle
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“Depois de ter feito os ritos de iniciação*, os meus pais me aconselharam a casar. Eles disseram que eu teria uma vida melhor, que o meu marido iria dar-me tudo o que eu quisesse. Eu queria obedecer aos meus pais, e então casei-me. Eu tinha 14 anos,” diz Mariamo Omar Ambasse Age, de 17 anos de idade.

A rádio ajudou-me a sair do meu casamento prematuro
"Eu acho um pesadelo casar enquanto criança. Para as meninas que estão casadas, eu peço que não deixem de lutar pelos seus sonhos, peçam ajuda e saiam do vosso casamento. Não abandonem a vossa educação, o vosso futuro depende dos estudos," disse Mariamo Age, de 17 anos de idade. © UNICEF Mozambique/2017/Fauvrelle

Mariamo nasceu no distrito de Angoche, na província de Nampula. Vive numa comunidade pequena, a casa é de construção precária e quando chove a água da chuva entra dentro de sua casa. Tem uma família grande, composta por 3 irmãos e 3 irmãs. Mariamo é a menina mais nova da família. Os seus pais sobrevivem da agricultura e pesca, a sua mãe trabalha numa “machamba” familiar e o seu pai é pescador.

Mariamo gosta muito de estudar, e sonha em ser uma advogada, sonho este que foi interrompido quando frequentava a 10ª classe, quando os seus pais a convenceram a casar-se com um homem de 36 anos com a perspectiva de melhorar a sua vida e da família.

“Eu pensava que fosse ter uma vida melhor depois de casar, que não ia faltar comida, mas havia dias que não tinha o que comer e nem sabia o que iria comer no dia seguinte. O meu marido não me disse para parar de estudar, mas fui obrigada a deixar a escola para poder trabalhar e ajudar a sustentar-nos. Eu vendia amendoim na rua e com o pouco dinheiro comprava comida,” lembra Mariamo do tempo em que era casada.

Certo dia Mariamo escutou na Rádio Comunitária de Parapato um programa sobre casamentos prematuros. “Eu não sabia o que eram casamentos prematuros, não sabia que eu estava num. Ao escutar na rádio eu soube que era errado, e o que fazer para sair do meu casamento”.

Mariamo decidiu contactar a responsável do programa de rádio e contou a sua história, “a senhora Arminda da rádio perguntou-me se eu queria sair do meu casamento, e eu disse que sim, porque queria voltar a estudar.” A rádio levou a Mariamo ao Gabinete de Atendimento da Mulher e da Criança em Angoche e chamou os seus pais. “Perguntaram aos meus pais o que eles ganharam em casar-me criança, e os meus pais disseram que não tiveram benefícios, só queriam que eu vivesse uma vida melhor, não sabiam que ia sofrer. Eles disseram que estavam arrependidos e gostariam de me ver de volta à escola.”

A Rádio Parapato e o Gabinete ajudaram Mariamo a sair do seu casamento e a voltar à escola, deram-lhe também material escolar porque os seus pais não tinham condições.

Hoje Mariamo está a concluir a 11ª classe, e quer ser advogada. “Quero ser advogada para poder ajudar as crianças a defender os direitos delas, e evitar que outras meninas passem pelo que eu passei, porque já estou cansada de injustiça.”

A Rádio Parapato ajudou 7 meninas a saírem de casamentos prematuros e a sonhar com um futuro melhor. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) tem apoiado, através do Fórum Nacional de Rádios Comunitárias (FORCOM) e do Instituto de Comunicação Social (ICS), na produção de programas radiofónicos semanais em Português e nas línguas nacionais em cerca de 60 rádios comunitárias, incluindo a Rádio Parapato. O UNICEF também apoia na produção de programas de rádio de Criança-para-Criança, que são programas de rádio concebidos e produzidos por crianças para crianças, plataformas importantes para a participação e engajamento delas.

“Eu acho um pesadelo casar enquanto criança. Para as meninas que estão casadas, eu peço que não deixem de lutar pelos seus sonhos, peçam ajuda e saiam do vosso casamento. Não abandonem a vossa educação, o vosso futuro depende dos estudos. Quero agradecer a Rádio Parapato por ter-me ajudado a voltar a sonhar,” concluiu Mariamo com um olhar determinado.

 

Sobre os casamentos prematuros em Moçambique

Os casamentos prematuros afectam quase a metade das raparigas abaixo dos 18 anos de idade em Moçambique (segundo o Inquérito Demográfico e de Saúde de 2011), colocando o país na 11ª posição a nível mundial em termos de prevalência de casamentos prematuros.

Ao casar-se, espera-se que a rapariga renuncie a sua infância e muitas vezes a escola para assumir o seu papel de esposa e mãe, cumprindo com todos os deveres de mulher incluindo manter relações sexuais e procriar. É nesta perspectiva que o casamento prematuro é visto como violência ou forma de legitimar o abuso sexual das crianças.

 

Sobre os ritos de iniciação

Há muito tempo, os ritos de iniciação são usados como meio de educação dos indivíduos, e, estes mesmos ritos são passados de gerações em gerações, numa clara alusão de preservação e transmissão da identidade cultural.

Os ritos de iniciação ainda são muito usados por diferentes sociedades na transmissão de diversos conhecimentos. Para as meninas, o rito tem como orientação a preparação da mulher para a vida de mulher casada, mãe e dona de casa. Aqui, a submissão ao marido inclui a não recusa de relações sexuais com ele.

Embora todos tenham os mesmos objectivos de preparação dos indivíduos para a vida em sociedade, a realização de ritos de iniciação em Moçambique não obedece a um padrão nacional. Eles vão variando de um grupo étnico linguístico para outro. (Liendina Chirindza, UEM)

 

Sobre o FORCOM

O Fórum Nacional de Rádios Comunitárias, abreviadamente designado FORCOM, é uma organização constituída em rede. Surgiu em 2004 com o objectivo de melhorar a coordenação e o trabalho realizado pelas rádios comunitárias. O FORCOM congrega actualmente 45 Rádios Comunitárias em todo o País.

O UNICEF tem apoiado o FORCOM desde 2005.




Para mais informações, favor contactar:

Claudio Fauvrelle
Tel +258 21 481 100
email: cfauvrelle@unicef.org

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